Sobre as mães

(…) a minha mãe (…) não é só a minha mãe, embora eu também tenha essa sorte. Sou mais eu que sou filho dela, que é uma sorte maior. Quando eu nasci (…) já ela era a mulher fascinante que me fascina; impossível de não amar, que amo. Foi e é a rapariga que não deixa de ser quem é, lá por ter filhos. Protegeu como mãe mas ensinou como menina (…), já um terror estabelecido, pronta para o mal e para o bem que forem necessários. A minha mãe (…) ofereceu-me o tesouro mais precioso que existe: a independência. O meu pai avisou-me mil vezes que eu só deveria gostar de quem gostasse. Por amor, por coração. Que não havia nem sangue nem dever nem nada de pesado e melodramático no amar. Amar a minha mãe é fácil. É ser amado por ela que tem valor. Ela deu-me a vaidade de achar-me não só amado como irresistível. É essa a grande dádiva de uma mãe – ou até de um pai. Tornam-nos convencidos. Fazem de nós estupores ingratos, que pensam que não têm problemas. Já não é mau. Por muito pior que possa ser (…).
 
Miguel Esteves Cardoso, in Público
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