Sonho de uma noite de inverno

Encontraram-se os dois numa noite de inverno. Completos desconhecidos, olhavam-se distantes, canto a canto, tentando forçar a subtileza das expressões dos rostos, do rodar de cabeça, do movimento dos corpos. Sem ele perceber, ela acompanhava cada movimento dele, fingindo não querer saber. Ele, igualmente envolvido, aproveitava a necessidade de uma bebida para se aproximar dela no regresso, vindo do balcão.

Eram dois estranhos no meio da multidão de um bar de Lisboa, numa noite quente de inverno.

Por algumas vezes, ela isolava-se do seu pequeno grupo para despertar nele o impulso de ir ter com ela.  Ele ia. Não por entender os sinais, mas por querer estar por perto. Ela dançava cada vez melhor só para o agradar e começava agora a provocá-lo com pequenos olhares insinuadores. Ele achava melhor tentar não entender esses olhares, por medo que tudo fosse um sonho só seu, não partilhado, não mútuo.

Uma nova música começava agora. Lado a lado, ela olhava para ele: do alto da sua jovialidade, ele cantava. Tal como ela. Era uma música especial para ambos, mas eles ainda não sabiam. Ela dançou com ele, sem se tocarem. Apenas se olharam. 

No fim da noite, um toque no braço e mal sabiam o que estava prestes a acontecer.

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